Salvos pela Graça
“Ai das almas frágeis e tímidas, divididas entre Deus e o mundo em que vivem! Querem e não querem. São consumidas pelo desejo e pelo remorso a um só tempo [...] Tem horror ao mal e vergonha do bem. Sentem as dores da virtude sem saborear-lhe as doces consolações. Ó, desgraçadas que são” François Fénelon
Sábado, 11 de Julho de 2009
Introdução à Meditação Diária...
Dietrich Bonhoeffer, The Way to Freedom: Letters and Notes, 1935-1939. Ed. Edwin H. Robertson. Trans. Edwin H. Robertson & John Bowden (New York: Harper and Row, 1966), pp. 57-61.
I. Por que meditar?
Porque sou um cristão, e porque cada dia em que não passeio mais profundamente no conhecimento da Palavra de Deus na Sagrada Escritura é desperdiçado. Eu só posso continuar na certeza do firme fundamento da Palavra de Deus. E como cristão, eu aprendo a conhecer a Sagrada Escritura apenas por ouvir sermões e por meditar em oração.
Porque eu sou um pregador da Palavra, eu não posso expor a Escritura a menos que eu deixe que ela fale a mim diariamente. Eu estarei utilizando mal a Palavra em meu trabalho se eu não meditar nela continuamente em oração. Se a Palavra parece muitas vezes vazia para mim, se eu não a tenha experimentado, tudo isto é um sinal inconfundível que eu, a muito tempo, não mais tenho deixado que ela fale ao meu coração. Eu erro quando, a cada dia, eu deixo de procurar a Palavra que o Senhor tem para mim naquele dia. Atos 6.4 fala particularmente sobre o ministério da oração para aqueles que tem o compromisso de pregar a Palavra. O pastor deve orar mais do que os outros, e ele tem mais motivos para orar.
Porque eu preciso de uma firme disciplina de oração. Nós temos paixão por orar como nossa fantasia nos leva, por pouco tempo, por muito tempo, ou até mesmo totalmente. Isso é teimosia. Oração não é uma oferta livre que apresentamos a Deus. Nós não somos livres para continuar como nós desejamos. Oração é o primeiro serviço do dia que prestamos a Deus (Sl 119.147, ss., 164). Deus requer nosso tempo para este serviço. Deus precisou de tempo antes de enviar Cristo para nossa salvação. Ele precisa de tempo para vir ao meu coração, para minha salvação.
Porque eu preciso de ajuda contra minha pressa que não é adequada, e também da inquietação que põe em perigo meu trabalho como pastor. Um serviço verdadeiramente dedicado todo dia só vem da paz [que procede] da Palavra de Deus.
II. O que eu espero da meditação cristã?
Em todo caso, nós queremos nos erguer da meditação diferente do que nós éramos quando nós nos prostramos desanimados. Nós queremos encontrar Cristo em sua Palavra. Vamos ao texto curiosos para ouvir o que dele precisamos saber, e o que nos diz através de sua Palavra. A cada dia, encontro-o primeiro antes de encontrar as outras pessoas. Toda manhã nEle descansamos tudo o que nos ocupa, concernente a dificuldades, para que toda apreensão que nós temos seja aquietada. Pergunte a si mesmo o que ainda está lhe impedindo de O seguir completamente, e deixe-O ser o Senhor sobre isto, antes que novos impedimentos surjam.
Sua proximidade, sua ajuda e sua direção para o dia pela Sua Palavra, este é o seu objetivo. Desta forma começamos o dia fortalecendo a nossa fé.
III. Como devemos meditar?
Há meditação tanto livre quanto bíblica. Nós recomendamos a meditação bíblica para moldar nossas orações e, ao mesmo tempo, pelo disciplinar de nossos pensamentos. Finalmente, nós preferimos a meditação bíblica porque nos faz consciente de nosso companheirismo com outros [irmãos] que estão meditando no mesmo texto.
A Palavra da Escritura nunca deve parar de soar em nossos ouvidos, e trabalhar em nós ao longo do dia, como as palavras de alguém que você ama. E assim como você não analisa as palavras de alguém que você ama, mas aceita o que ele diz a você, aceite a Palavra da Escritura e medite-a em seu coração, como Maria fez. Isto é tudo. Isto é tudo. Isto é meditação. Não olhe para novas reflexões e conexões no texto, como se você estivesse preparando uma pregação. Não questione: “como passar isto para alguém”, mas “o que ele tem a dizer para mim?” Pondere na Palavra longamente em seu coração e deixe que ela te dirija e te possua.
Não é importante consumir o texto integral proposto para cada dia. Nós ficaremos, freqüentemente, esperando um inteiro o que ele tem a dizer. Deixe passagens incompreensíveis sossegadamente de lado, e não se apresse a ir à filologia. Não há nenhum lugar aqui para o uso do Novo Testamento grego; use o familiar texto de Lutero.
Se os seus pensamentos te distraírem ore pelas pessoas e situações que te preocupam. Este é o lugar certo para intercessão. Neste caso, não ore em termos gerais, mas ore de forma objetiva, por aquilo que te preocupa. Deixe a Palavra da Escritura te conduzir. Pode ser de ajuda você escrever calmamente o nome das pessoas com quem conversamos e pensamos todos os dias. Intercessão precisa de tempo se for levada a sério. Mas cuidado ao fixar um tempo designado para intercessão, para que este não se torne uma fuga daquilo que é mais importante, a busca pela salvação de sua própria alma.
Iniciamos a meditação com uma oração pelo Espírito Santo. Que ele clareie o nosso coração e prepare a nossa mente para a meditação e de todos aqueles que estarão meditando também. Então nos voltamos ao texto. Ao término da meditação nós estaremos em posição de proferir uma oração de ação de graças com um coração satisfeito.
À respeito do texto, como deve ser feito? Deve ser meditado durante toda semana, um texto com aproximadamente dez a quinze versos. Não é bom meditarmos um texto diferente a cada dia, pois a nossa capacidade nem sempre é a mesma. Não importa o que aconteça, não leve o texto no qual você irá pregar no domingo que vem. Isso pertence à preparação do sermão. É de grande ajuda para uma comunidade saber que você é participante do mesmo texto ao longo de toda semana.
O tempo para a meditação é de manhã, antes de começar as tarefas. Meia hora é o mínimo de tempo necessário para a meditação. Observe que o pré-requisito é quietude extrema e o objetivo é não ser distraído com nada, por mais importante que seja.
Uma atividade da comunidade cristã, infelizmente praticada muito raramente, mas bastante útil, é quando ocasionalmente duas ou mais pessoas se dispõe a meditar juntas. Mas que não tomem parte em discussões teológicas especulativas.
IV. Como vencer as dificuldades da meditação?
Quem leva à sério a prática da meditação séria logo vai encontrar algumas dificuldades. Meditação e oração devem ser praticadas por muito tempo e seriamente. A primeira coisa que deve ser lembrada é que não devemos ser impacientes consigo mesmo. Não se limite ao desespero dos devaneios de seus pensamentos. Não tente reprimir os pensamentos à força, mas inclua calmamente as pessoas e os acontecimentos, para os quais os pensamentos teimam em voltar, em nossa oração, voltando assim com toda paciência ao texto da meditação. Deste modo, você não terá desperdiçado os minutos com tal divagação, e estas não o aborrecerão.
Há muitas ajudas que cada um deverá buscar para as próprias dificuldades especiais: Leia o mesmo texto repetidamente, escreva seus pensamentos, e deixe o verso que te prende mais a atenção ficar guardado no seu coração, meditando-o (de fato, de qualquer maneira, a pessoa poderá ter qualquer texto, fora o que realmente foi meditado, de cor). Nós também logo aprenderemos sobre o perigo de escapar da meditação através de um estudo bíblico erudito ou de qualquer outra coisa. Por trás de todas as necessidades e dificuldades há realmente um engano quanto à nossa grande necessidade de oração: muitos de nós permanecemos por um tempo demasiado longo sem qualquer ajuda e instrução.
Em face disto, não há nada mais para ser dito, somente que devemos começar novamente, fiel e pacientemente, nas mais elementares práticas da oração e meditação. Você será ajudado, além disso, pelo fato de que outros também estão meditando, o que toda santa Igreja, em todo lugar e em todo o tempo, no céu e na terra, estão orando juntos. Este é o conforto na fraqueza da oração. E apesar de saber em todo o tempo, que não sabemos orar como convém, o Santo Espírito intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.
Nós podemos deixar esta preocupação diária com a Escritura, e precisamos começar isto imediatamente, se nós já não fazemos assim. Porque é nela que nós temos a vida eterna.
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
João Calvino: O Teólogo da Vida...

Calvino estava inserido num estado social dualista. Sem dúvida que o pensamento social e humano que Calvino desenvolveu tem gerado mudanças no mundo dos pensamentos e concepções. O reformador submetia o seu intelecto perante a face de Deus. Neste sentido, a sua teologia valoriza a vida humana. Para Calvino não é somente o ser humano que deve ser honrado por possuir a semelhança à imagem divina, mas também o mundo como uma criação divina. A teologia que ele elaborou dava proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera a salvação e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida do mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como Criador. [1]
A compreensão da vida social para Calvino é baseada na interpretação bíblica. Todo tipo de engajamento visa cumprir o mandamento divino. Zelar, cuidar, honrar e respeitar a vida humana e tudo o que implica o bem-estar do homem era o alvo deste servo de Deus.
A Reforma Protestante ocorrida no século XVI não foi somente um movimento espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais. Calvino, muito mais que Lutero, se debruçou sobre o tema social e o valor da vida humana.
João Calvino lutou para que a sociedade tivesse uma vida melhor. Pregou contra a opressão religiosa. Contra as guerras. Contra as heresias. Contra o desemprego. Contra a desigualdade. Contra a miséria. Este homem fez valer o nome de cristão. Possuía uma fé ativa.
Calvino tinha uma leitura social e humana perspicaz. Em 1535, ele fundou o Hospital Geral, destinado a dar assistência aos enfermos, aos pobres, aos órfãos e aos idosos.
Dois fatos são suficientes para impressionar vocês com a veracidade disto. Durante a terrível peste bubônica que certa vez devastou Milão, o amor heróico do Cardeal Borromeo distinguiu-se brilhantemente na coragem que ele manifestou em suas ministrações aos moribundos; mas durante a peste bubônica, que no século XVI atormentou Genebra, Calvino agiu melhor e mais sabiamente, pois não apenas cuidou incessantemente das necessidades espirituais dos doentes, mas ao mesmo tempo introduziu medidas higiênicas até então incomparáveis, pelas quais as ruínas da praga foram interrompidas. [2]
Existia no contexto de Calvino exclusão social e desigualdade em todos os níveis. Em consideração à penúria de víveres, a pobreza de uma parte da população e a avareza de outros, medidas de ordem econômica foram tomadas imediatamente contra o monopólio e a especulação para colocar os produtos básicos da alimentação ao alcance de todas as pessoas.
Calvino desenvolveu a sua teologia dentro de um ambiente contaminado pelo caos. Genebra e quase toda Suíça viviam uma crise de todas as (des) ordens possíveis. A sua teologia é prática e se voltava para o povo. No seu diagnóstico, Calvino tentou criar um sistema ou um ambiente de vida em que todos pudessem mudar para melhor. A situação de Genebra era lamentável. Havia muita pobreza. Impostos agravados e pesados. Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de trabalho. O número de analfabetos era altíssimo. Carecia de assistência social em toda parte. Os bêbados dominavam as ruas. A prostituição era uma forte marca da cidade. Essa era basicamente a situação que Genebra se encontrava antes da Reforma.
Para Calvino o elemento do mal social era a rebeldia do homem. O pecado introduziu perturbações profundas na sociedade. Calvino entendia que o caos econômico é causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de nos suprir as necessidades.
Uma indignação permeava o coração de Calvino. Ele faz uma denuncia contra os pecados sociais, exemplo: estocagem de alimentos (trigo), monopólios e a especulação financeira, como tendo a origem no egoísmo e na avareza do homem. Ele denunciava aqueles que preferiam deixar que o trigo se deteriorasse em seus celeiros, para que ali fosse devorado por bichos, e apodrecesse, ao invés de ser vendido, quando a necessidade do povo se fazia sentir. [3]
Um outro aspecto da teologia deste reformador é o combate a todo tipo de indolência e vida ociosa. Para a valorização do ser humano, ele mesmo precisa se sentir valorizado. Então, a teologia que Calvino desenvolve tem uma complementação no que tange a vida humana – a questão do trabalho. O reformador entendia que o homem deve viver do suor do seu trabalho. Uma posição bíblica. Portanto, o trabalho é algo eminentemente digno, pois é a realização da vontade de Deus para o homem. Assim, o homem não se realiza plenamente, senão no trabalho, visto que foi para isso que foi criado e vocacionado. Por isso, existia uma pregação veemente contra o desemprego. Privar o homem do seu trabalho é pecado contra Deus – pois o trabalho é dom de Deus, e o dever que ordenou ao homem, ensinava Calvino. Quem fecha uma porta de emprego para uma pessoa, é o mesmo que tirar a vida de quem busca o emprego. Pois todo o homem depende dia a dia do seu labor para o pão. Ele precisa sustentar a sua família. Assim, promover o desemprego, na opinião de Calvino, seria um atentado à vida humana, e, portanto, um pecado contra o próprio Deus – “Não matarás”. [4] Calvino faz um destaque, por mais que a pessoa esteja necessitada de um emprego o patrão nunca poderá inferiorizá-la. Calvino traz a luz para o relacionamento empregado e empregador a Epístola de Tiago, em que todos estão no mesmo nível. Se o empregado tem um senhor, o empregador deve entender que existe o Senhor dele, e este é justo na sua ação. Sendo assim, ninguém deve defraudar o outro. O empregado deve se dedicar ao trabalho e o patrão deve pagar dignamente o seu empregado pelo trabalho exercido.
Por causa desse significado espiritual e ético conferido ao salário, o produto do trabalho não pertence, portanto, mais ao patrão que ao operário, ambos sócios na atividade comum. Em conjunto, recebem o produto como a recompensa providencial de seu esforço. Patrões e empregados são, em conjunto e igualmente, devedores de Deus segundo os dons que receberam e puseram em atividade, sem mérito maior para uns ou outros. Devem, portanto, repartir esses frutos de comum acordo, livremente, mas levando em conta a contribuição inicial e a responsabilidade de cada um. Disso decorre que não se trata simplesmente de regular-se pela lei da oferta e da procura, sem qualquer outra consideração ética. E mesmo que tal ética jamais haja sido aplicada à letra, é sua orientação espiritual que importa observar. A negociação, aqui como em qualquer lugar, deve ocorrer. A negociação é um princípio social superior, que deriva diretamente do fato de que nenhum fator econômico é sozinho, dono do que produz em conjunto com os outros. O produto permanece sinal concreto da graça de Deus, um dom a partilhar. [5]
O destaque aqui é que Deus considera como roubo não somente o que o homem detrai das posses do próximo, mas ainda tudo o de que o priva, em recusando-lhe o que lhe deveria prover da parte de Deus. Todo bem que deveria servir ao proveito do próximo, e é retido ou desviado, é por Deus considerado como uma posse fraudulenta. Privar o próximo daquilo que Deus lhe pretende conferir é cometer um confisco às suas expensas e uma ofensa contra Deus. Portanto, a ação que a igreja pastoreada por Calvino teve foi a seguinte:
O protestantismo de tradição reformada alfabetizou o homem da sua época, dando-lhe acesso a um mínimo de instrução. Libertou-o de uma série de vícios danosos à sua saúde, nocivos à sua capacidade de trabalho, e o conduziu às virtudes de uma vida sóbria. Integrou o homem em uma comunidade, que é também um grupo de ajuda mútua. Ensinou que o homem deve buscar seu papel social como uma vocação, um chamado de Deus. Entendeu que a atividade econômica e financeira deve ser um direito de todos, sem privilégio ou exclusividade por parte do Estado ou da Igreja. [6]
Em diversos comentários e sermões, Calvino afirmava que a escravidão era absolutamente contrária à ordem natural correspondente aos desígnios de Deus. Demonstrava que essa ordem fora e continuava sendo degenerada pelo pecado dos homens. O reformador continua:
“Ainda que os primeiros que hajam sido escravizados”, escrevia, “tenham sido oprimidos por direito de guerra ou porque a pobreza os haja constrangido, é absolutamente certo que a ordem da natureza se corrompa violentamente”. “E, se bem que seja útil que uns superintendam outros, conviria mais, todavia, preservar uma condição de igualdade entre irmãos”. O reformador insiste, também, sobre o fato de que a liberdade dos escravos é muito freqüentemente de tal sorte explorada que os libertos tombam para situação pior que a anterior. Por isso, ajunta, o Antigo Testamento prescreve que o escravo emancipado deve receber, no momento da libertação, toda a ajuda necessária para a assunção de sua plena liberdade. E o ensinamento do Novo Testamento e de São Paulo em particular, prossegue, confirma o do Antigo. Ele nos esclarece que a escravidão, “contrária a toda ordem natural”, é, com muito maior razão, oposta à ética cristã. Mas, acrescenta ainda o reformador, a ordem da sociedade não pode ser mudada, enquanto os próprios crentes não se ajustarem à Palavra de Deus de forma muito estrita, para deslanchar as transformações necessárias da ordem política. Caso contrário, esta permanece “a ordem de Deus perturba”. [7]
Veementemente Calvino lutou contra todo sistema desigual. Havia desvios e sonegação. Muitos empregadores não pagavam os funcionários corretamente, e a mulher sofria preconceitos e tinha o salário menor do que o homem.
O trabalho dos homens e mulheres de nosso tempo perdeu sua dignidade. Essa dignidade é a que Deus lhe confere fazendo-o uma vocação pessoal, da qual cada indivíduo é responsável perante ele. Essa vocação é fundamental da responsabilidade inalienável de todo trabalhador e de toda trabalhadora, seja qual for sua ocupação (e desde que evidentemente esse trabalho seja moralmente honroso e socialmente tolerável). [8]
Calvino interveio junto aos seus colegas para que a ética da justa remuneração fosse aplicada na sua cidade. Naquela época, como na maioria dos países vizinhos, a população atravessava um período difícil que era caracterizado por alta generalizada do custo de vida. Os salários não acompanhavam essa elevação.
O salário concedido a todo trabalhador é, portanto, a expressão tangível do salário gratuito com que Deus privilegia a obra de cada indivíduo. Assim, por mais profano que seja, o salário se reporta à obra de Deus. Expressa de forma visível a intervenção de Deus em favor da frágil existência humana. Além disso, porque esse salário é o sinal da graça de Deus, não pode ser considerado como favor, que o dono do trabalho possa dispor como bem lhe prouver. Dando ao trabalhador a remuneração de seu trabalho, o dono nada mais faz que transferir ao próximo aquilo a que este tem direito da parte de Deus. [9]
A marca da teologia deste humanista era que cada ser humano deve usufruir direitos iguais, com a liberdade de dedicar-se à atividade criadora. E seu trabalho produtivo deve exercer-se na solidariedade, o que determina que a liberdade seja dominada em favor de uma justa redistribuição (mas não estritamente igualitária obrigatoriamente) das riquezas produzidas, já que estas foram elaboradas a partir de recursos gratuitamente postos por Deus à disposição de todos. [10]
A Bíblia condena quem quer que seja de abusar do trabalho de outra pessoa. A função da Igreja é a de denunciação e a de anunciação. A Igreja tem de denunciar todas as estruturas pecaminosas que oprimem e escravizam os seres humanos. Algumas vezes, a voz da Igreja pode ser a única que tenha condições de falar abertamente. A Igreja tem o dever de anunciar a vinda do reino de Deus, as possibilidades de uma ordem mais justa, mais humana e mais segura. [11]
Este conceito é admirável. Deus contempla o que Deus fez. Deus observa que as criaturas humanas de Deus são imagens da própria pessoa de Deus. Deus observa que elas refletem a Deus, que elas são a imagem de Deus, que elas são semelhantes a Deus. Deus se deleita nisso. Isso serve de base ao amor de Deus. De fato, Deus se deleita em todas as suas obras. Mas os seres humanos se destacam das outras criaturas pelo fato de que eles refletem as próprias perfeições de Deus. Conseqüentemente, maltratar um de nossos semelhantes é maltratar uma daquelas criaturas com as quais, acima de tudo, Deus se deleita. Na realidade, é verdade que a exigência de justiça se baseia em nossa própria natureza – especialmente, no fato de que ser um ser humano é ser uma criatura que mantém aquela relação especial de imagem de Deus. Calvino disse algo penetrante:
Os homens são, de fato, indignos do cuidado de Deus, se leva em consideração somente a eles mesmos. Mas, visto que eles carregam a imagem de Deus gravada neles, Deus mesmo é violado nos seres humanos. Assim, embora eles não tenham nada deles mesmos pelo que possam obter o favor divino, Deus olha para seus próprios dons neles e, dessa maneira, é levado a amá-los e a cuidar deles. Contudo, deve-se observar cuidadosamente essa doutrina, visto que ninguém pode prejudicar seu irmão sem ferir a Deus mesmo. Se essa doutrina estivesse fixada mais profundamente em nossa mente, relutaríamos mais quando fossemos praticar algo danoso. [12]
Mas qual é o modelo do pensamento de Calvino nesse ponto? Calvino gostava de empregar a metáfora do espelho: ser um ser humano é refletir Deus. Mas em que aspectos nós refletimos Deus? E quais são precisamente as exigências de justiça e caridade baseadas neste ato de refletir? O pensamento de Calvino é o de que, claramente, maltratar o espelho significa maltratar o que ele reflete – maltratar o ser humano é maltratar a Deus. [13]
Para Calvino, a necessidade de igualdade e a necessidade de caridade estão fundamentadas no fato de que ser um ser humano é ser um ícone vivo para Deus e, como tal, possuir uma dignidade que está além dos papéis que desempenhamos e além das finalidades que buscamos.
Portanto, com a clareza deste ensino é possível destacar três pontos importantes para o relacionamento com a criação:
1) A nossa responsabilidade para com todas as criaturas humanas deve ser igual a nossa relação com toda a criação de Deus. Independe da sua posição política, classe social, de sua nacionalidade, de sua religião ou de qualquer outra coisa, mas no fato de que são criaturas de Deus;
2) A imagem e semelhança de Deus – imago Dei – está impressa em toda criatura humana. Sendo assim, aquele que despreza e inferioriza a outra pessoa comete um atentado contra o próprio Deus;
3) A distribuição do poder de Deus é para todos. Todo ser humano exerce o mesmo poder e domínio sobre a criação, isso quer dizer que ninguém poder exercer o direito de dominar ou oprimir outra criatura humana.
Toda a criação caiu com o pecado e está agora sob a ação redentora de Cristo, que é o Senhor tanto da Igreja quanto da sociedade. Os cristãos devem lutar hoje para manifestar a presença do reino de Deus, embora a sua plenitude somente se alcançará com o retorno de Cristo. Somos salvos para servir. Os cristãos devem se infiltrar em todas as esferas da sociedade para chamá-la ao arrependimento e à conformação às normas do reino. A Igreja é um centro de arregimentação e treinamento de pessoas que se reformam para reformar. Assim viveu João Calvino. Este é o seu legado. Sigamos o seu exemplo de vida. Calvino nos ensinou que o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida.
[1] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 38.
[2] Ibid., p. 127.
[3] NICODEMOS, Augustus Lopes. Calvino e a Responsabilidade Social da Igreja. São Paulo: PES. pp. 8-9.
[4] Ibid., pp 12-14.
[5] BIÉLER, André. A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. p. 129.
[6] CAVALCANTI, Robinson. Cristianismo & Política. Viçosa: Ultimato, 2002. p. 138.
[7] BIÉLER, André. A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. p. 101.
[8] Ibid., p. 215.
[9] Ibid., p. 129.
[10] Ibid., p. 118.
[11] MCKIM, Donald K. Grandes Temas da Tradição Reformada. São Paulo: Pendão Real, 1998. p. 349.
[12] Ibid., p. 275.
[13] Ibid., p. 274.
Sábado, 4 de Julho de 2009
Frases de João Calvino...
“Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida”.
[João Calvino, As Institutas – edição Especial, Vol IV, pg 181, Ed Cep,]
“Os sofrimentos desta vida longe estão de obstruir nossa salvação; antes, ao contrário, são seus assistentes. (...) Embora os leitos e os réprobos se vejam expostos, sem distinção, aos mesmos males, todavia existe uma enorme diferença entre eles, pois Deus instrui os crentes pela instrumentalidade das aflições e consolida sua salvação (...) As aflições, portanto, não devem ser um motivo para nos sentirmos entristecidos, amargurados ou sobrecarregados, a menos que também reprovemos a eleição do Senhor, pela qual fomos predestinados para vida, e vivamos relutantes em levar em nosso ser a imagem do Filho de Deus, por meio da qual somos preparados para glória celestial”.
[João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Parakletos, 1997, (Rm 8.28,29), p. 293,295]
"Não há nada que Satanás mais tente fazer do que levantar névoas para obscurecer Cristo; pois ele sabe que dessa forma o caminho está aberto para todo tipo de falsidade. Assim, o único meio de manter e também restaurar a doutrina pura e colocar Cristo diante de nossos olhos, exatamente como ele é, com todas as Suas bênçãos, para que Seu poder possa ser verdadeiramente percebido" [João Calvino, As Institutas da Religião Cristã]
“Para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de Deus, na qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Porquanto, a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual assim como nada que seja útil e salutar conhecer é omitido, assim também não há nada que nela seja ensinado que não seja válido e proveito saber”.
[João Calvino, As institutas, Cap VII, pg 39, Vl 1, edição especial, Editora Cep]
E devemos confiar que assim como nosso Pai nos nutriu hoje, Ele não falhará amanhâ. João Calvino, Instrução na fé, cap. 24, p. 67.




